segunda-feira, 30 de julho de 2007

Humor melancólico

Raimundo era mecânico, um homem forte, gordo, de bigode longo e pele clara. Um bom sujeito. Mineiro, triste. Desconfiado. Três filhos, dois com a primeira mulher, um com a segunda. Joana, 3, Bernadete,7, Jonas com 8. Ambos os matrimônios desfeitos. Corneado pelas duas mulheres. Raimundo, portanto, havia bebido o cálice da amargura. Resmungava sempre. Vizinhos passaram a evitá-lo na rua, as mulheres só viam através dele. A não ser quando o motor pifava, o pneu furava, aí: da-lhe Raimundo. A oficina, no bairro Coqueiros podia estar fechada, a farofa na mesa, cachaça no copo. Ele saia, correndo, deixava os meninos esperando, O telefone berrando, para socorrer suas musas: a DRa Tatiana do posto de saúde, pediatra da Joana, a Dona Eleonora, mulher do padeiro, ou, Gisele filha do sargento. Um ninfa, gostosérrima. Cabelos negros, olhos esverdeados, cintura fina. Um monumento. Mas na hora de trocar o óleo, não adiantava insistir, diziam que não precisava, agradeciam, iam embora.Um certo domingo, ao contrário das espectativas ninguém apareceu. As crianças com suas mães. Ninguém telefonou. O movimento foi fraco. Raimundo fechou a oficina às onze da manhã. Tinha pomarola na geladeira, cerveja. O jogo do galo ia ser às quatro da tarde. No armário tinha arroz, milho. Numa segunda olhadela na geladeira viu um frango. Faltava a cachaça. Resolveu ir no bar do Juca na Monsenhor Jõao Martins, Novo Progresso. Perto do Cantinho Mineiro.Subia a rua Taiobeiras, imerso em seus pensamentos sombrios quando..."Psiu, psiu, moço, moço. Um chamado, era de mulher.Raimundo sequer olhou para trás, era um azarado, na certa aquela era a voz de uma dama, naturalmente procurando pelo marido. Sem mais delongas, Raimundo ignorando a voz seguiu seu caminho.Psiu, psiu, a voz insistia, parecia não encontrar resposta, um gata ronronando ao acaso.Raimundo ollhou para um lado, para o outro. Nada, nenhum outro homem à vista."Moço, é o senhor mesmo, por favor me ajuda. E o nosso Raimundo olhou para trás. Seus olhos imediantamente ganharam um novo brilho. E que brilho!A moça se aproximou. Era linda. Alta, trajava um jeans, uma camisa da campanha contra o câncer de Mama. Pés que caminhavam suavemente. Apesar do apêlo, a moça sorria. Tinha serenidade no semblante. A voz calma. Era loira. olhos terrivelmente azuis." O senhor mora por aqui?" claro. Respondeu nosso amigo." Espero não o estar incomodanto." Que nada. " É que eu sou sua nova vizinha, moro logo ali, naquela casa de telhado colonial. Será que o senhor pode ir até lá comigo?" Algum problema com o carro?" Carro? Não, não. O meu carrro tá ótimo." Não vejo em que posso ajudar.Seguiu-a, não sem antes apresentar um monte de evasivas. Das quais a moça se desvencilhou habilmente. Fazendo beicinho. Segurando o braço de Raimundo. Mas, o que o desconcertou mesmo, foi aquela piscadinha. Sairam, os dois. Atravessaram a rua. E tão logo chegaram no passeio o portão automaticamente se abriu. Entraram pela garagem, um Peugout 206 preto. Como o do sonho de Raimundo. Subiram a escada, adentraram à casa. Um tv 29 polegadas, um sofá de couro, um frigobar com vinhos, e diversas bebidas. Isso só na sala." Vamos até o quarto.As pernas de Raimundo tremeram. A moça sorria." Vamos, não se acanhe. Venha comigo. Raimundo deslumbrado segiu-a.Entraram, o quarto era de rara beleza, Quadros, cama de sucupira. E uma criança, as berros. Jogava copos no chão. Gritava. Chutava as grades do chiqueirinho.A mãe, ainda de braços dados com Raimundo chegou-se a criança e disse:" Filho, se você não obedecer a mamãe. Ficar quietinho e não provar a sopinha que preparei. Quando crescer vai ficar igualzinho à esta assombração.

Um comentário:

Alessandro Loiola disse...

Leandro,

obrigado pela visita e pelo comentário.

Concordo plenamento c/ vc quando diz q : "a relação do progresso humano e sua ligação com o modo como cada ser lida com seus conflitos e com o outro. Nisso, penso, nós jamais evoluimos".

Uma verdade aterradoramente profunda.

Um abraço do colega,

A.