Maria Lucia Galvão Albino é médica especializada em ginecologia e nos concedeu uma entrevista sobre a maternidade precoce, um fenômeno que atinge em um número cada vez maior a população de adolescentes brasileiras.
Doutora, atualmente, numa proporção alarmante, as mulheres estão sendo mães cada vez mais cedo. Segundo dados do IBGE do ano de 2003, a cada dez crianças registradas no Brasil, duas são filhas de mães com menos de vinte anos. Diante da imensa gama de informações publicadas por médicos sexólogos em jornais, revistas e vários outros meios de comunicação, a que se pode atribuir este problema?
Acredito que um dos fatores é essa erotização precoce da nossa sociedade atual, o forte apelo sexual está presente em várias áreas da vida do jovem: bailes, locais de lazer, televisão, revistas, etc. Há uma banalização do sexo que não é mais visto como conseqüência natural de um relacionamento estável e de compromisso, mas como um instrumento imediato de prazer apenas.
Pais e educadores responsabilizam os meios de comunicação pela propagação da maternidade precoce. Você concorda com esta afirmativa?
Concordo que exerça certa influência. Mas, se na escola e na familia houver um diálogo franco e esclarecedor com esses jovens, em que eles possam também ter um espaço para colocar seus questionamentos e dúvidas, eles aprenderão a ter uma visão mais crítica e questionadora sobre tudo isso que lhes é imposto pelos meios de comunicação.
Hiócrates De Cós, pai da medicina, dizia que as condições de saúde de um povo estão ligadas ao seu ambiente de vida. Sendo assim, cabe a pergunta: falta ainda um diálogo aberto entre pais e adolescentes sobre sexo. Na sua opinião como e quando deve acontecer essa conversa?
Eu creio que falta sim, porque os pais, muitas vezes, não tiveram esse diálogo franco com seus próprios pais e não elaboraram bem isso. Esse diálogo deve ser absolutamente natural, à medida que as perguntas forem aparecendo e a curiosidade dos jovens for aflorando.
Em que idade a mulher se vê em condições de ser mãe sem que isso acarrete danos nocivos ao seu desenvolvimento corporal?
Teoricamente, a mulher está preparada para ter filhos quando seu corpo já tem maturidade hormonal para isso: caracteres sexuais e menstruação. Mas essas condições orgânicas são um aspecto da questão. Nossas avós tinham filhos com 13,14 anos. Mas a questão não é só o desenvolvimento corporal, a meu ver. Tem um peso muito grande a imaturidade emocional, a enorme transformação que essa criança vai trazer na vida da adolescente, muitas vezes interrompendo seus estudos, obrigando-a a pular etapas do desenvolvimento natural de sua personalidade, trazendo dificuldades de ordem econômica, e tornando mães pessoas ainda despreparadas para essa função.
Como deve ser feito o planejamento de um casal que deseja ter filhos e que critérios ele deve levar em consideração?
Não existem normas rígidas. A liberdade de escolha do casal deve ser respeitada. O ideal seria que toda criança fosse planejada, desejada, vinda num momento de estabilidade econômica e emocional do casal. Para isso existem métodos de contracepção à disposição das mulheres. Basta que elas busquem esclarecimento e orientação sobre isso.
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Um comentário:
Prezado Leandro,
insisto em dizer que você seria um ótimo jornalista! Ótima entrevista. Parabéns!
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